Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Apocalipse de João

Cesto vazio ao fim da jornada
João lança a rede à esmo
Puxa
Vem seis apocalipses num lance só
Tenta de novo
E de novo
Trinta e três no total

João nunca viu daquilo
Teria um fim-do-mundo para cada dia do mês
E ainda sobrariam três

Venderia na banca por bom preço
Três apocalipses embrulhados em jornal
Só hoje:

Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

Entenda o mundo

DA TEMPERATURA DA ÁGUA LÍQUIDA

O aquecido debate sobre a questão do aquecimento global e, por conseguinte, da continuidade das condições naturais de convivência e sobrevivência no homem na Terra, está travestido pela cortina da discussão pública e política em âmbito planetário. No degelo de simpósios, conferências, congressos, fóruns e encontros afins, o que se mostra à superfície é um interesse menos politicamente correto, e mais esquivo e corrosivo. Sob a lâmina da contextualização e da análise sistemática, a discussão é, sem dúvida, econômica. Um jogo entre esferas financeiras, mercados consumidores, ativos de precificação, nações emergentes e sistemas nacionais de alcance mundial. Marginalizando os interesses obtusos, especialistas também criticam a esteticalização e a fetichização do debate, cenário que tornou qualquer audiência sobre o tema um imbróglio de informações desencontradas e precárias, mas vendida pela mídia como oportunidade única de encaminhamento de soluções. Na esteira dos sucessivos debates, protocolos, requerimentos, documentos, pedidos, propostas, cartas abertas, moções e outros papéis da burocracia discursiva não traduzem políticas práticas de ações efetivas. Há uma dicotomização do problema, entre países abastados e nações miseráveis. As falas são, portanto, conflitantes. Não há o diálogo puro e lúcido. E nem todos os atores sociais estão envolvidos. O argumento longe da perniciosa intenção econômica poderia deixar sem mácula os indicativos de observância e aplicabilidade das propostas apresentadas. Falta uma vontade supranacional para encontrar o caminho a trilhar. Intermitentemente, cada pisada é dada em solo estranho e qualquer avanço definitivo é desacreditado pelo ecossistema humano. Por enquanto, o certo é que árvores continuam sendo derrubadas para virarem protocolos autografados por lideranças de pensamento curto e raso. O urso polar, por sua vez, já não se confunde mais com o branco da neve. Não há branco, nem gelo. Daqui a pouco, nem urso. Sobra papel.

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Saldo

Ônibus chegam à ilha
Náufragos cansados esperam a fuga
Eles sempre retornam no outro dia

O cartão de passagens dá para o mês inteiro

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Incendiário

Escrevo após incêndios
Quando tudo é desmanche e brasa morta
Quando palavras em cacos, pedaços, carvão
Anseiam respirar fora dos escombros

De ruínas ergo varandas e sacadas
De muros caídos levanto palácios
De mansões fumegantes faço jardins
De ruas esburacadas pavimento pisos decorados

Em versos e estrofes reconstruo a cidade
Casas sucumbidas ao fogo voltam a aquecer
Fábricas apagadas retomam seus barulhos
Esquinas de cinzas espalham cruzamentos

Não me prosto ao caos e ao desespero
Não me prosto à bomba e ao meteoro
Não me prosto ao trovão e à enchente
Não me prosto ao assassino e à fuga

Permaneço e me elevo
Subo a escada que construi
Chamo os habitantes às moradas
Antes mortos, agora vivos, natos

Escrever é obra de ressurreição
Empreitada de três dias (ou nem isso)
Ascendo ao céu quando tudo pronto
Então deito e descanso e amanheço

Me carrego de substantivos e vírgulas
Até que alguém grite verbo inédito
No quinto andar de um prédio em chamas
Espero o desabamento e vou

Levo pás e tratores
Numa caixa, livros e discos
A letra é manifesto quando sufocada
A canção é linda quando reverbera no pó

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Oca sombra

Entre tua pele meridional e meus olhos de acrílico
Há um brilho boreal de manhã fria e branca
Há uma luz que semeia sorrisos em campos de neve
Há uma névoa acorrentando duas respirações

Eu vim de longe
Carrego na sola mapas de descobrimentos
Na palma das mãos, anagramas de vontades
O pó, o asfalto e a lama testemunham a jornada
Uma palmeira alta, um gato pardo e uma menina azul
Ouviram minhas composições

Hoje, dia plagiado de ontem
(num deslize criativo do Criador)
Neste vale de montanhas infinitas
Encontro teu olhar de galáxia
Vejo teu cabelo de cores vespertinas
Orbito teus desenhos de noite aberta

Eu, seco e lento
Eu, tolo e espinho
Eu, caminho estreito
Eu, miopia e fraqueza
Eu, amarras e cercas
Eu, pedra, cisco e gelo
Me penumbro
Me vazio
Me mudo
Analfabeto

Entre tua pele e meus olhos
Entre tua boca e minha música
Oca sombra muralha o renascimento do mundo
Você ainda me atravessa
Levo na garganta as iluminuras da tua palavra
Por isso falo xadrez e escrevo branco
Me revelo em respingos no abrir da tua varanda
Mas sou muito desabrigo para morar na tua casa

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Deus também tem quatro letras

O medo é quadrado: forma de sombra
Arranca ângulos de tempestades
Traz noite e ânsia

O medo é quarto: túmulo aceso
Respira o odor fóssil do antes
Gargareja mofo e angústia

O medo é quadro: adorno na alma-de-estar
Visita a infância de correrias e sol
A perna sem cálcio não pisa mais o chão

O medo é quarteto sombrio:
Morte, culpa, fraqueza, covardia
Toca instrumentos de sopro
Crava espinhos roucos na plateia

O medo é quatro: usurpador da trindade
Número de voo em abismo
Múltiplo de cadáveres na segunda

O medo é quadra: geometria de assassinos
Espreita nas esquinas os preocupados
Faz muros bloqueando fugas

Eis o medo:
Fogo frio
Água negra
Estátua de vento
Poeira dos cantos

Eis o medo:
Hipotenusa dos fracos

Eis nosso inimigo, meu amor

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Rã cor

O preso preto
amarga amarras marrons
por dois azares azuis

Ele, verme vermelho
amara amarelo
deixou ela de rosto roxo

A puta púrpura
bradou brancos femininos

Mulher de verdes verdades
abriu porta de lilás liberdade
gritando desgraçados degradês

Enquanto arranha paredes
em cinza cinzas
Na feira ela compra
laranjas (bem) alaranjadas

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Corredor

Vivia na cidade grande com coisas quentes na cabeça. Não sabia o que era tranquilidade ou outra espécie de coisas pequenas. Acostumou-se ao mundo gigantesco. Viadutos, rodovias, pontes, prédios, relatórios e soberbas. E ela também era assim. Igual ao ambiente. Talvez um pouco menor por dentro. Mas as coisas sempre aparentam ser maiores do que pensamos, mesmo quando o pensamento já seja enorme. Somos expansivos. Somos sem fim. Principalmente quando se vive numa cidade feita de prazos e rotinas. Rotinas lancinantes. Ruas imersas em infinitos.

Toda vez que saía do escritório, ao fim da tarde, passava na ótica para ver modelos de óculos. Cada dia era um diferente. Tinha interesse, na verdade, pelo guardador de veículos ao lado. Rapaz normal que veste sempre uma camisa verde. A cidade não permite muitos contatos. A vida é pequena, nesse sentido. Tudo pode girar ou ser grande, mas no campo dos relacionamentos há uma pequenez de corredor. Há um terror que assola todo dia. Nervuras de dias inteiros de sol e pedidos. Quando chega fim de semana, chove castigando.

Havia displicência com o futuro, com a preocupação comum de sobrevivência e respeito. O que queria era pequeno. Teria de se mudar. De cidade, de profissão, de planos. Depois de dois meses chovendo nos finais de semana, decidiu que no próximo domingo-sol visitaria o lugar indicado no catálogo turístico.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Tarrafa

Viera de cidade mais pequena. Ele, filho único de sexo masculino numa família açoriana. Homem miúdo. Alma tranquila. Mente só para o trabalho. Desde os sete trabalhava no mercadinho da rua central. Ajudava os pais pesqueiros. Pensava em ser médico. As irmãs, duas irmãs mais velhas, uma dois e outra três anos a mais que ele, eram atendentes na loja de armarinhos. Nos fins de semana, costuravam roupinhas de bebê. Pensavam, as duas, em casar logo.

A vida não era fácil, todos sabem. Nunca foi para ninguém. Nascer homem é sempre melhor num mundo desses. Ele se lembra de uma conversa entre o pai e a mãe quando tinha lá seus dez anos.

– Ainda bem que temos ele. Já imaginou três mulheres em casa! Seria muita incomodação.
– Mas ele com esses sonhos de médico ainda vai dar trabalho. Sei lá. Ainda é cedo. Talvez mude de ideia. Algo próximo da gente. Menos barqueiro.
– Não sei. Ele sempre fala nisso. Desde que viu aquela revista. Até pediu a revista para o homem. Está lá guardada na gaveta.
– E a Gabriela sempre chegando depois do horário. Ah, menina...

Estava chegando da escola, quando pescou o diálogo. Levava jeito.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Onze palavras

Ele sobe a escada como se turista fosse. Em cada degrau para e observa. A lagoa com frio, a montanha sonolenta, uns guris ao longe jogando bola. Abaixo, pessoas se apinhando ao pé da torre.

Era um domingo. Bom dia para terminar coisas atrasadas. Beto chegou cedo, quando ainda não havia ninguém no parque. Esperaria até o meio dia. Daria tempo aos jornalistas para fazerem a matéria completa amanhã. Beto conversou com várias pessoas. Até com crianças. Não tinha muito jeito com elas. Falava bem mesmo era com as mulheres.

Ele era da própria cidade. Nunca fora no parque, no entanto. Sentia-se como estrangeiro. Era o único ali sem máquina fotográfica. A torre até que não era alta. Um pouco mais que cinquenta degraus metálicos. Do alto do penúltimo degrau, quando já era possível ver a rodovia que risca a serra do mar, ele percebeu em sua curiosidade rara um homem conversando ao ouvido com uma mulher. Namoro na torre?

Era o dia de Beto. Domingo. E ele não iria embora sozinho. Pensou numa criança que pulava sobre a plataforma o tempo todo. Incomodava. Mas quando viu a mulherzinha, não teve dúvidas. Era ela. Beto se aproximou. Falou palavras. Onze. Baixinho.

A curiosidade de turista o chamava para o outro lado. O da praia. Um passo acima e poderia contemplar a cidade com olhos panorâmicos. Já na plataforma, ele pode ver que a rodovia na montanha é como uma cachoeira listrada. Daria bom quadro para um pintor medíocre. Lembrou-se do homem e da mulher. Olhou. Haviam descido. Sem passar por ele.

Os jornais deram a notícia com riqueza de detalhes na segunda. Beto saiu na capa. Ela não, só o nome. E a transcrição de um bilhete com palavras. Onze.

Ele demorou lá em cima. Nem percebeu o alvoroço lá em baixo. Ficara deslumbrado ao ver a cidade de um modo nunca visto. Ele morava ali havia 35 anos. Quando desceu já passava do meio dia. O parque estava tranquilo. Famílias faziam piquenique nos gramados. Foi uma tarde feliz. Coisa que não sai no jornal. Pena que ele não é de se interessar pelo que acontece na cidade. Não lê jornal.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Dias a fio

Manhã respira café
Chaminé acena fumaça
Casa convida papo de varanda

Jardim estaca foices
Calçada desenha avisos
Cadeira balança senhora em tricôs

Infância atravessa cerca
Carro passa longe
Costume ninguém dormir

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

Urbana Ave

Vivo entre estátuas de lã
Carentes de edredons e quenturas
No coração cimentado

Busco migalhas pelos cantos
Onde pneus não lambem
Nem pisam sapatos encardidos

Caminho num vagar de trem chegando
Cuidadoso de olhares e passadas
Que dilatam minha calma insustentável

Percebo todos os movimentos
O esbarro, a correria, o pulo, o aceno
Mas só vejo bem coisas paradas

Desconfio sempre das crianças
Elas costumam parar
E, parando, me distraem dos cuidados

Detesto barulho e chuva
Vassouras e pás são meus infernos
Posso voar, devo agradecer

Não entendo essas pessoas amontoadas
Esculturas encharcadas de pressa
Redemoinhos de pó, buscam ventos

Ontem vi uma menina de asas
Hoje já estava de uniforme
Tenho pena

Sexta-feira, Julho 24, 2009

Rara leveza

Há uma rara leveza nos pés da bailarina. Mistura de brisa e fúria. De jato e balão. Fuga e permanência. Os contornos da sapatilha delimitam territórios onde os abismos se avizinham com as alturas. Dançar é correr o risco do voo e desdenhar a queda. As sapatilhas são asas colocadas nos pés, desafiando a gravidade em movimentos aéreos. Um voar descontrolado diria alguém preso ao chão. Não. É um voar em planos perfeitos, de mensagens claras escritas como em nuvens, de desenhos no ar, de textos inteiros digitados pelos pés-pincéis da palavra. Anda, dança, corre, pula, salta, troveja, viaja o corpo-alfabeto da bailarina sobre o palco, campo negro pronto a semeaduras. A cada passo da menina feita de plumas, formam-se letras. Pernas em curvas, braços em linhas, tronco em ângulos incomuns. E a cabeça como acento agudo sobre o corpo, um pingo no “i”, quase adorno. Verbos vão sendo construídos de carnes dobradas e torcidas, adornados por figurinos coloridos: pano de fundo, véu que esconde o mistério a ser revelado. Pela sequência de passos-letras, dizeres neblinam o ar. Na sequência de dizeres, há manuscritos feitos pelos pés. No rastro da sapatilha de giz, no quadro-negro do palco fixam-se contos inteiros. As crianças já sabem ler bem antes de irem à escola.

A rara leveza da dança é a rara beleza da criança. Da leitura do mundo pelo olhar de vislumbre. Do olhar o mundo com olhos de avião ou de pássaro inquieto. Do voo, da aventura como necessidade. Uma necessidade solta, insignificante, apenas agasalhada pela seda branca do vento. A rara leveza da dança é feita do mesmo peso dos sonhos. Um peso ligeiro, ágil, livre, inconsciente. Uma leveza da mesma que habita a imaginação, os quartos de sol, as janelas abertas, os cabelos loiros da mulher de vestido xadrez e as borboletas de setembro. Uma leveza de balão com velocidade de jato. A rara leveza da dança é quase som. Não raro, um canto feito só de gestos. E tintas. E olhares. Daí pintura: passeio à beira da colina.

Não há medo nos quadrantes da leveza. O compasso das pernas risca semicírculos breves de calma, entrecortados por saltos de espanto e de grito. Não um grito de temor ou de crime. Grito de cachoeira, espanto sublime. A sapatilha da bailarina é escudo na escuridão. Paredes, palco e plateia são florestas de névoa. A luz só ilumina o escudo, só reflete o corpo de espelhos da menina que veste plumas. Não há nada mais a olhar, não há notas de rodapé, não nem mesmo o horizonte. A rara leveza da dança, da dança em versos dos pés da bailarina, só existe em função da altura. A distância vertical entre a sola do escudo tecido em fios com a lona do tablado. A distância entre o piso e o topo desse tablado. A distância dos olhos até o piso. A altura do voo até os olhos. Há uma rara leveza que flutua o olhar. E qual criança não quer ser nuvem colorida? Ou bolha de sabão?

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Hebdomática

Gripe
Cada resfriado tem a tosse que merece.

Anemia
Têm sangue branco os que promovem a paz? A guerra e o amor são vermelhos.

Diabetes
Evitei tua carne doce. Hoje durmo com árvores.

Faringite
Desde que deixou de falar, anda desdizendo.

Lepra
Os desertos andam lotados ultimamente.

Catapora
Desconheço o que havia a.C. Não achei nada no Google.

Osteoporose
Pai, se o leite é bom para os ossos, porque o queijo suíço é cheio de buracos?

Terça-feira, Julho 14, 2009

Cinzazul

Clareiamanhã
Tardeatrazer
Ventosopranos
Terramarela
E tantasobrasementes

Raiordinário
Experimentagora
Andaremando
Sobressesoloutrorantigo
Mas aindalvo

E tudo virespasmolfatorelhalmavalanchenzima
Carnestragadartenigma
Olhestefêmeróvulo-mundo
Como correialgemalarmescada-rolante
Tremarimbondoumarapucantesilenciosagorarmada
Vejanela
Ruafora
Google