Quinta-feira, Abril 19, 2012

Íngreme


A voz no vento
enerva
espalha areia e sal

A duna, íngreme
estrada flutuante
ecoa só

Rasga a garganta
ermo ar
espiando

O rastro: rápido memorial
escrito, estreito
ectoplasmático

Vigia o sol, por seu turno
espreme o grito
esganando

Dali, um segundo
escarnece da morte
ex-luz

Quinta-feira, Março 22, 2012

LP


Reverbero teu beijo
Num acorde mimético
Faixa a faixa
Frame a frame
Slow motion

Repetidas vezes
Re-sonho
Re-vivo
Re-play
Sonora meu sangue

Sinfonia dos lábios
Em vitrola de carne
Tua língua me ouve
Agulha na alma de vinil
B-side

Engulo teu sopro
Numa digestão orquestrada
Rosa, violino e partitura
A maestria do corpo
In concert

Na passagem de som 
A saliva equaliza toda dor
Tua boca me cura
Hide track
Acoustic single

Domingo, Março 18, 2012

9ª Feira do Livro em Joinville – 2012

A programação oficial da 9ª edição da Feira do Livro de Joinville está definida. O evento que acontece de 12 a 22 de abril no Centreventos Cau Hansen terá participação dos escritores Aderbal Freire Filho, Adriana Kortlandt, Affonso Romano de Sant’Anna, Alcione Araújo, Ana Maria Machado, Antônio Cícero, Fernando Morais, Maria Lúcia Simões, Regina Drummond e Sérgio Rodrigues, do pesquisador Carlos Chernicharo, do cantor Martinho da Vila e dos jornalistas Flávio Fachel e Fernando Bond.

A feira também será palco de diversos lançamentos literários de escritores locais. A programação vai apresentar os trabalhos de Eneida Raquel de S. Thiago, Vanessa Bencz e Luiz Antônio Selbach, no dia 13, Humberto Soares e Jorge Hoffmann, no dia 14, Mônica Fantin e João Marcos Buch, no dia 16, e Geraldinho Lemos Neto, dia 19. Diariamente, das 9 às 21h, ainda acontecem atividades culturais com contação de histórias e apresentações de música, dança e cinema. (Clique na imagem abaixo para ampliar).



Outro destaque da programação paralela será os encontros de autores locais. De 13 a 22 de abril acontece o Fala do Escritor, projeto organizado pela Confraria do Escritor que vai trazer uma dupla de escritores por dia (cronograma abaixo), num espaço voltado para a troca de ideias, divulgação de trabalhos e discussões afins. Já no dia 21, às 18h, ocorre uma mesa redonda com os blogueiros de Joinville que atuam na produção de contos, crônicas, poemas e outros textos literários na internet. Quem não tem um blog pessoal mas acompanha o que se escreve na Web também está convidado a participar.

Fala do Escritor:
13/04 (sexta), 10h: Donald Malschitzky e David Gonçalves
14/04 (sábado), 15h: Marcos Laffin e Nielson Modro
15/04 (domingo), 15h: Salvador Neto e Giane Maria de Souza
16/04 (segunda), 10h: Jorge Hoffmann e Miriam A. da Rocha
17/04 (terça), 19h30: Marco Aurélio e Talita Fernanda
18/04 (quarta), 15h: Mariza V. Rodrigues e Sandro Erzinger
19/04 (quinta), 10h: Nielson Modro e JB
20/04 (sexta), 15h: Marcos Laffin e Dúnia de Freitas
21/04 (sábado), 15h: Rubens da Cunha e Marinaldo de Silva e Silva
22/04 (domingo), 15h: Salvador Neto e Marco Schettert

Serviço
Data: 12 a 22 de abril
Horário: das 9 às 21h
Local: Centreventos Cau Hansen (Av. José Vieira, 315 – Centro – Joinville – SC)

Quinta-feira, Março 15, 2012

Desenigma


E se tudo for tão claro
Estupidamente claro e branco e triste
Uma catarata, avalanche, rendição

E se tudo for tão simples
Absurdamente simples e barato e infantil
Um grampo, um clips, bolha de sabão

E se tudo for tão reto
Rigorosamente reto e fino e contínuo
Uma tripa, uma travessia, um cordão

O que será do mistério
Das esquinas nebulosas
Dos esconderijos galácticos
Das noites espirais
?

Para que tantas bibliotecas
Ou explicações acadêmicas
Ou sermões pentecostais
Ou dicas da TV
?

Para onde irão as serpentes
Não haverá muros
Não haverá gatos
Não haverá esfinges
?

Tão claro e lúcido
Tão simples e reto
Tão céu e tédio
Tão estranho e nada

Tão descurvo e rente
Tão nivelado e firme
Tão limpo e suave
Tão seco e antipó

Em algum lugar um cemitério
Jazem curvas e tropeços e iras
Jazem fome e esgoto e bolores
Jazem teorias e cataclismas e caos

Em algum lugar a assepsia
E a revolta dos labirintos
E a revoada dos dragões
E a resistência dos poetas

Se não houver enigma
Não haverá descontentamento
Onde habitará a mulher
Ela, a criança e o balão?

Tão absurda e possível
Tão cega e reluzente
Tão interrogativa e certa
Uma dúvida, uma condição

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

Prenúncio

Nem o vento
(que antes soprava)
Nem o burburinho
(das crianças ao longe)
Nem o barulho dos carros
(que antes irritava)
Nem o solapar dos chinelos
(deixando areia na calçada)

Reina na orla uma paz inquieta
O perigo iminente da solidão
Uma guerra por trás dos montes
Uma armadilha aos desavisados

Até a gaivota
(que dissimulava cortesia)
Até o cachorro
(que fingia amizade)
Até o gato
(que não engana ninguém)
Até o atendente
(que se faz de entendido)

Debandaram todos
Caranguejos, siris, lesmas
A fugir de um predador
Das profecias do apocalipse

Sentado à beira do trapiche
O pescador observa o mar
A tempestade sempre chega
Mas avisa antes. Ele sabe.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Retrospectiva 2011

Rio de Janeiro
Fevereiro da Silva
Águas de Março
Abril Despedaçado
A Revolução de Maio
Três Dias em Junho
Sombras de Julho
Rapsódia em Agosto
O Último Setembro
Outubro Vermelho
Doce Novembro
Uma Vez em Dezembro

Terça-feira, Novembro 29, 2011

Livros "esquecidos" viram bem comum em projeto da Biblioteca Municipal de Joinville


A Biblioteca Municipal de Joinville "esqueceu" em vários pontos da cidade mais de 70 títulos de literatura. Trata-se do Projeto "Soltos na Cidade", que pretende deixar em praças, pontos de ônibus, bares ou qualquer outro lugar, livros que podem ser levados para casa e apreciados sem compromisso. A ideia é que o leitor "esqueça" também o livro, depois de lido, passando adiante a obra e o despertar da leitura.

Soltos na Cidade é uma das ações do município que fazem parte do Programa Joinville Cidade dos Livros e, segundo, Alcione Pauli, coordenadora da Biblioteca, está apenas no início. A ideia é que muitos livros que já estejam catalogados e com exemplares sobrando, façam parte do projeto. Escritores que fazem parte da Confraria do Escritor já doaram livros seus para o "Soltos na Cidade".

A pessoa que pegar o livro, lerá na primeira página o seguinte texto:
"Esse livro chegou até você. Ele não pertence a ninguém. Está Solto na Cidade! Após ser lido, ele poderá ser deixado (esquecido) em praças, pontos de ônibus, bares ou qualquer outro local público, para que seja achado por alguma pessoa interessada em lê-lo. Faça o mesmo, libere os seus próprios livros para que outros possam aproveitá-los! Caso queira, mande-nos um e-mail com o seu comentário a respeito do projeto para biblioteca@joinville.sc.gov.br ou ligue 55 (47) 3422.7000. Boa leitura!"

É possível fazer doações para o projeto, desde que o livro não esteja rasgado ou rasurado. Os contatos são os mesmos do texto acima.

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

Por assim dizer

Nem sempre talvez seja quase
Às vezes, contudo, pode ser
Mas aí, quem sabe

Ao menos, agora, foi por pouco
Um estalo, se tanto, de entreouvir
No vão do olhar, por assim dizer

Talvez um pardal inquieto (e qual não é)
Um cisco no vento, quem diria
Dançando sem música

Também pudera ser a casa
Num ranger de dentes e tijolos
É muito imaginar, todavia

O mais provável, isto é, o impossível
Seria o quebrar dos gravetos
Por teus passos de pródigo, diga-se

Aliás, se, de fato, voltares
Me verás meio assim, sei lá
Entre vírgulas, entre tantos poréns

Contudo, não sei se isso foi há pouco
Ou uns três anos atrás
Quem sabe dez, ou quase

Quem dera dizer o certo, quiçá a verdade
Lembrar do estalo como explosão
No desabrir do olho
(ou no fechar derradeiro da porta, vai saber)

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

Papel de parede

Um caco
tem
tantos cantos
quanto prantos
ambos espremidos
em miniaturas
no chão

Pra meu espanto
nem acalento
lágrimas
e
vidros
embora
transpareço opaco
em certas estações

Só planto janelas
ergo tijolos à vista
em ritmo lento
vento-burro-jumento
a pastar
entreedifícios

Uma folha-
árvore miúda
cai entre os estalos
: meus socos na parede
brancos ficam os dentes
ao mastigar o cerol

Ao misturar
a verdade
ao cimento se fez
a liga plúmbea
das crenças
adornadas pelo reboco
e
listelos decorados
em cerâmica

A pedra lançada contra
a casa só fortaleceu
a parede
ainda em construção

Por certo
um caco
cobre a calçada
um pé descalço
descuida ao pisar
,surge um dogma
entre os tendões

Te peço (e só) que
te repartas comigo,
um caco (que seja)
entre
teus
tantos
ladrilhos, estampas, recortes, vãos

Quem chora pra si (mesmo)
não vai para o céu
: escrevi com cal
no alto da torre
- sem assinar

Interstício

abandono.abismo.branco.brecha.buraco.cavidade.côncavo.corte.cova.distância.espaço.falha.fenda.fissura.fosso.fratura.fresta.furo.greta.hiato.intermitência.intervalo.lacuna.lapso.largo.oco.poço.prisão.profundidade.quebra.rasgo.ruptura.sulco.talho.tempo.trincheira.vala.vale.vão.vazio.voltamos.buceta.

Segunda-feira, Julho 04, 2011

Viração do dia

Na véspera de todos os delírios
Éramos jardim na praça da cidade
Árvores, cercas e flores
Alinhados ao caminho dos passantes

Nossa simetria cartesiana
Nossa disposição entre calçadas
Nosso respeito à ordem

Na véspera de todos os delírios
Éramos torre de vigia
Muros, pedras, montanhas
Um quadro na sala de estar

Nossa pureza de vida
Nossa medida certa
Nosso padrão categórico

E ao primeiro sussurro de hoje
Tudo se estilhaça

Árvores caídas
Cercas quebradas
Flores murchas
A queda da torre
O sangue no muro
A pedra e o tropeço
Os montes em fuga
A casa abandonada

E o olhar fractal
E as ruas caóticas
E os semáforos daltônicos

E os vômitos na praça
E as doses a mais
E a morte das gentilezas

E entre todos os delírios
O branco do beijo
Vaporiza a santidade dos dias
(os de ontem)
- O amanhã espia delinquente

Domingo, Julho 03, 2011

Hiato

Na hora suprema
Ninguém poderá tuitar
#morri

Segunda-feira, Abril 18, 2011

In vitro

libélula contorna a lâmpada
insiste em atravessar o vidro

seria o bulbo uma vulva?
acredita

tem fé de espermatozoide

Sábado, Abril 16, 2011

Esvair-se

mãos transparentes:
vê-se nervos e tatuagens
carnestragada
telegrafando sangues de ontem

víbora entre hemáceas
gato aninhado entre pulmões
respiram os últimos apocalipses
atravessando a cerviz

dobram-se joelhos
enquanto o escorpião fere um calcanhar
não há mais firmamento

abutre ao sol, por testemunha
venera o cheiro da decomposição

por comer frutas e verduras
ninguém se esvai feito folha de outono

seca-se dentro, primeiro
esvaziamentos e hemorragias
depois a pele reclama
os ossos incomodam

passarinhos sabem bem
,ao menos voam

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

BR

Em rodovias engarrafadas
náufragos escrevem mensagens
usando apenas buzinas

Alguém os ouvirá
multiplicando no céu
um enxame de ofensas

Apesar do esforço
esse ainda não é o jeito certo
de fazer o carro voar
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